19/02/2010

China causa distorção no comércio mundial

 
Montada em reservas internacionais de US$ 2,5 trilhões, a China tem dado as cartas no jogo cambial mundial. Mantendo sua moeda, o iuan, artificialmente desvalorizada, o governo chinês está provocando uma forte distorção no comércio internacional. Num momento em que as demais divisas se valorizam diante do dólar, ainda mais enfraquecido com o deficit fiscal elevado pela crise, o câmbio fixo chinês dá competitividade excessiva aos produtos nacionais. Os prejudicados são seus principais rivais no mercado externo, como o Brasil e os demais emergentes.
 
A pressão para que as autoridades da terceira maior economia global, no caminho para se tornar a segunda neste ano, valorizem a moeda aumentou nos últimos meses e vem de todos os lados.
        
        
“O que a China faz é um verdadeiro ‘dumping cambial’. Eles ganham mais condições de concorrer não por eficiência ou maior produtividade, mas simplesmente porque adotaram uma política deliberada de atrelar o iuan ao dólar. Das moedas que contam, é a única que não está se valorizando neste momento de crise”, afirma Roberto Giannetti da Fonseca, diretor de Comércio Exterior e Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
 
Segundo suas estimativas, os produtos chineses, que já eram baratos, tiveram os preços reduzidos entre 25% e 30% só no segundo semestre do ano passado com o efeito cambial. “Estão roubando empregos dos concorrentes sem nenhum escrúpulo.”
 
Na primeira metade da década, com as pressões subindo, o governo decidiu fazer pequenos movimentos de valorização na moeda, mas sem abrir mão do câmbio controlado. De 2005 a meados de 2008, a cotação do dólar caiu de 8,20 iuans para 6,83.
 
Desde então, principalmente após o agravamento da crise global, o valor tem ficado praticamente fixo nesse nível. A máxima de 2009 foi de 6,85. “Essa valorização é irrisória. Se eles praticassem o câmbio flexível, certamente estariam acompanhando o mundo, com as cotações subindo em vez de ficarem estáticas”, reclama Giannetti. As autoridades ficam tranquilas porque, com reservas trilionárias, o país está livre de ataques especulativos como o que sofreu o real em 1999.
 
Ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex ) (1)no governo Fernando Henrique, Giannetti acha que as reclamações atuais são muito tímidas. Os países não querem comprar uma briga com a China, que ganha cada vez mais poder econômico e comercial. Em 1985, Brasil e China detinham cerca de 1,5% do comércio mundial cada um.
 
De lá para cá, o Brasil caiu para 0,8% e estacionou agora em 1,25%. Enquanto isso, a China saltou para 10%. Mesmo com a queda de 16% nas vendas externas provocadas pela recessão mundial, o país acumulou um saldo comercial (diferença entre exportações e importações) de US$ 196 bilhões em 2009, com baixa de 34,2%. O recorde se deu em 2007 (US$ 262,2 bilhões).
 
Conflito
Em viagem oficial à China no fim do ano passado, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reclamou ao presidente Hu Jintao e ao primeiro-ministro Wen Jiabao da valorização do iuan, que provoca um deficit já crônico do país nas suas relações com os chineses. Ouviu promessas de que o governo estudará formas de equilibrar a balança comercial entre os parceiros e um contra-ataque: as tarifas cobradas nos EUA dos produtos chineses são muito altas. Obama não quis melindrar as autoridades econômicas chinesas, pois elas literalmente financiam o buraco nas contas públicas norte-americanas ao comprar títulos do Tesouro. Se quiserem, têm força para dar o golpe final no dólar.
 
Como os apelos em nome de um comércio internacional mais igualitário não vêm surtindo efeito, o governo norte-americano e o Fundo Monetário Internacional (FMI) passaram a recorrer à própria saúde econômica chinesa como argumento para a valorização. Para o secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, uma maior flexibilidade na taxa de câmbio contribuiria para fortalecer o crescimento sustentável, alicerçado no comércio interno, além de permitir uma política monetária capaz de controlar a inflação no futuro. O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse algo semelhante. Analistas internacionais, porém, acreditam que as autoridades só irão se mover quando for do interesse único da economia do país.
 
“Nada deve mudar no curto prazo. Como a tendência do dólar é continuar caindo, o iuan vai segui-lo. Isso dá uma desvantagem competitiva brutal para os demais países. O maior problema do Brasil no mercado internacional hoje é a China”, assegura o economista Julio Sérgio Gomes de Almeida, professor da Unicamp. A única saída que o Brasil teria para estimular seus produtos na guerra por compradores externos é “dar um jeito” no próprio câmbio, tomando mais medidas para desvalorizar o real frente ao dólar. Depois que o governo taxou a entrada de capital externo para investimentos em renda fixa e variável, a cotação deixou de cair e ficou variando entre R$ 1,70 e R$ 1,90.
 
Ex-secretário de Política Econômica, Almeida defende o aumento das compras de dólares pelo Banco Central para reduzir a moeda em circulação — as reservas nacionais já estão acima de US$ 240 bilhões. Se forem necessárias, ele sugere outras medidas: o aumento na taxação ao capital, que hoje é de 2%, e a fixação de limites para aplicações estrangeiras no mercado futuro. Boa parte dos recursos que entram no país tem o objetivo de especular nos segmentos derivativos. “Não são medidas agradáveis, mas podem se fazer necessárias. O governo estabeleceu a cobrança sobre o capital e o mundo não caiu. O dinheiro continuou entrando e o Brasil ainda é o queridinho do mundo. Os investidores entendem quando é preciso fazer algo”, afirma.
 
1 - Tarifas
A Camex é o órgão vinculado ao Ministério do Desenvolvimento que coordena as políticas voltadas para as exportações e importações de produtos e serviços. Ela decide, por exemplo, as tarifas de importação e as retaliações contra outros países. O grupo é formado pelos ministros do Desenvolvimento, Fazenda, Relações Exteriores, Agricultura, Planejamento e Casa Civil.
 
E EU COM ISSO
Quando um país usa de artifícios, como a concessão de subsídios, a venda abaixo do preço de custo ou a moeda nacional exageradamente valorizada em relação ao dólar, ele ganha um poder injusto no mercado internacional. Seus produtos ficam mais baratos e tendem a vender mais. Isso toma espaço de países que não utilizaram os mesmos mecanismos, muitos deles considerados ilegítimos pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Nesses países que ficaram para trás, a queda nas exportações prejudica as indústrias e a agricultura. Com menos faturamento, as empresas podem fechar fábricas, demitir funcionários ou reduzir salários. No fim das contas, quem paga é o trabalhador. (RA)
 
Por : Ricardo Allan, para o Jornal “Correio Braziliense”,

« Voltar

Outros Artigos & Legislações

16/08/2010 Dicas para a Negociações Interculturais » Leia mais

05/07/2010 O Despachante e Suas Vantagens » Leia mais

23/06/2010 Regulamento Aduaneiro Alterado - Decreto 6.759/09 » Leia mais

18/06/2010 Ressarcimento de créditos aos exportadores - Portaria MF nº » Leia mais

27/05/2010 PORTARIA SECEX Nº 10 substitui Portarias SECEX nº 25 » Leia mais

29/04/2010 Novas regras para Drawback Integrado ampliam benefício fisca » Leia mais

29/04/2010 Capital e trabalho se unem contra importação » Leia mais

30/03/2010 Drawback Integrado - Portaria Conjunta RFB/SECEX nº 467 » Leia mais

30/03/2010 A China e a crise no Mercosul » Leia mais

30/03/2010 Resolução 3.844 - Câmbio desburocratizado » Leia mais

18/03/2010 Habilitação no Siscomex - Modalidade Simplificada de Pequena » Leia mais

18/03/2010 É possível recuperar tributos após pena de perdimento » Leia mais

25/02/2010 Isenção de IPI na venda de importados » Leia mais

25/02/2010 Principais documentos necessários para exportação aos países » Leia mais

19/02/2010 Oportunidades com Países Árabes » Leia mais

08/02/2010 Empresas mudam rotas para fugir de portos ruins » Leia mais

26/01/2010 Importação de Bens Via Remessa Postal » Leia mais

25/01/2010 Habilitação Importadores e Exportadores - IN SRF nº 650 » Leia mais

25/01/2010 Cresce a disputa pela carreira diplomática » Leia mais

14/01/2010 Contratos FOB » Leia mais

 1  2  3  4 

 
 

Efetuando Login...

Área do Associado
Login
Senha
» Esqueci a Senha

Oportunidade de Emprego

Faça o cadastro de seu Currículo e concorra a um emprego!

Newsletter

Receba informações sobre Comércio Exterior

Digite seu e-mail no campo acima e receba novidades da Abracomex

  Página Inicial
  Associados
  Bolsa de Capacitação
  A ABRACOMEX
  Treinamentos
  Ações Desenvolvidas
  Portal de Ensino
  Estatuto
  Porque ser Associado
  Consultoria
  Estatística Comex
  Promoção de Exportações
  Inteligência Comercial
  For International Trader
  Start Import
  Importação de Veículos
  Itajaí Trade Summit
  Notícias
  Legislação e Artigos
  Oportunidades de Emprego
  Cadastre seu Currículo
  Currículos Cadastrados
  Localização
  Contato

Associação Brasileira de Consultoria e Assessoria em Comércio Exterior

São Paulo: (11) 2171-1528 (11) 3711-2115 | Rio de Janeiro: (21) 3020-2646 | Espírito Santo: (27) 3345-7349 (27) 3052-1448 | Santa Catarina: (47) 3001 2600
Paraná: (41) 3941-5303 | Rio Grande do Sul: (51) 3251-4444